Memórias I

Ontem, a propósito de uma conversa com um amigo, lembrei-me das tardes que passava na garagem do meu avô quando tinha uns 3 anos. É claro que são recordações esparsas, só imagens que ficaram gravadas na minha memória e que de tempos a tempos me voltam à mente.

Lembro-me que a garagem do meu avô era bem mais do que um sítio para pôr o carro. Era na verdade uma oficina onde o meu avô se entretinha todas as tardes a arranjar maquinetas, a substituir peças, a soldar, a lixar, a pintar… Usava também aquilo a que ainda hoje chama o “aparelho” e que sei agora que é um amperímetro. E eu, claro, era a sua prestável ajudante. Sabia onde estava tudo e fazíamos uma equipa imbatível (apesar de provavelmente eu não chegar às coisas ou não poder com a maior parte da ferramenta).

Havia um banquinho de madeira, que é minúsculo, mas que na altura me parecia ter um tamanho perfeitamente aceitável, e que tinha um buraco no meio. O meu avô explicou-me que servia para ser mais fácil transportar o banquinho só com um dedo. Qual dedo, qual fácil, qual quê, naquele buraquinho entravam vários dedos meus, e nem isso o tornava mais portátil, mas lá conseguia arrastá-lo para o sítio onde o meu avô ia executar a sua obra seguinte.

Em frente à garagem ainda havia um patiozinho, se bem me lembro, separado da rua por um gradeamento e um portão pintados com o que um dia já tinha sido vermelho. Nesse gradeamento havia um carreiro de formigas, mas em vez de serem aquelas formigas pequeninas, que eu não tinha medo de esborrachar impiedosamente com a mão, eram formigas grandes e feias, mas que tinham a vantagem de ser facilmente observáveis: era possível distinguir as três bolinhas que constituíam o seu corpo, contar as patas, olhar para as antenas…

Ainda hoje me pergunto se estas tardes não terão contribuído para a minha curiosidade por montar e desmontar coisas, por máquinas em geral e para o desenvolvimento do meu talento natural para encontrar parafusos que caem e que já ninguém consegue encontrar…

11 Respostas para “Memórias I”

  1. dexterf Diz:

    Good memories eh? :) montas coisas tu? :P nunca vi ou ouvi falar de algo montado por sua excelencia… fico a espera… mas sabes qual é a parte gira? daqui a uns 30 anos, give or take, estás tu a fazer o papel de avó a reparar coisas e tens o teu neto/a tua neta como ajudante e nessa altura vais-te lembrar da infancia outra vez :) e vais ficar feliz.
    Quanto a memória, esta muito bem colocada, é algo querida e é uma boa memória defacto.

  2. Raquel Saraiva Diz:

    Isa, fiz uma pausa no estudo e vim ler o teu último post, e digo-te, ainda bem que o fiz. Gostei imenso deste relato da tua infância. Espero q escrevas mais. :) beijinho e boa sorte para amnhã.

    • Filipa Diz:

      Menina,
      Um dia escrevo sobre as memórias das Três da Vida Airada! :P Aliás, o texto está feito há muito tempo (anos, até!) mas está guardadinho tão religiosamente que não sei onde anda! :P

  3. alexandrasofiags Diz:

    Pips,

    gostei imenso de ler este teu post. Incrível como consegues ter memórias de infância tão bem definidas.
    De qualquer das formas, achei engraçada a forma como passavas as tuas tardes em criança. Comigo as coisas não eram bem assim, eu gostava mais de desenhar.(na altura ainda não podia com um tijolo,por isso acho que me ficava pelo desenho)..eh eh

    beijo e boa sorte para amanha

    • Filipa Diz:

      Olá!
      Lembro-me de um dia termos falado sobre isto! Não tenho muitas memórias de infância, só algumas imagens de certas coisas mais marcantes e outras que aparentemente não têm importância nenhuma… Mas gostava de me lembrar melhor de como era ser pequenina…

      Beijinhos e uma recuperação rápida para o teu P.!

  4. pedro Diz:

    gostei tanto destas memórias :)*

    • Filipa Diz:

      Pedroooo! :)
      Já estás de férias! És oficialmente licenciado? :D
      Quando eu estiver um bocadinho mais desafogada de trabalho não te safas dum dos nossos almoços em que tentamos contar as novidades dos últimos meses em contra relógio! :P Não que haja assim tantas, mas pronto…

  5. pedro Diz:

    mas o mais giro é parece q o tempo nunca chega :)
    já estou de férias, agora estou à espera das últimas notas por isso ainda nao licenciado.. lol e acho que de mais uma melhoria nao me escapo. de resto, sexta tenho exame de contrabaixo e só entro oficialmente de férias :D
    força nesse trabalho.. estes ultimos tempos têm sido terriveis… e sim, claro, mega almoço depois :)
    beijooo*

  6. IVM Diz:

    Realmente, a compreensão profunda da psicologia do parafuso que cai e não quer ser encontrado revela que há talentos que só se adquirem se forem exercitados desde muito cedo…
    Curiosamente também tenho bancos com buraco nas minhas memórias de infância…
    Além disso, a minha mãe costumava também contar que, quando a minha irmã G (que tem 3 anos e tal mais que eu) era pequenina e tinha vestidinhos e cuequinhas com folhos, havia um gato que gostava de se meter debaixo do banco em que a sentavam e mexer com a patinha nos ditos folhos, através do buraco do banco, o que muito a irritava!

  7. JDuarte Diz:

    Incrível estas memórias tuas! Achei o teu relato fantástico! Eu tenho algumas memórias destas mas nada tão específico, são apenas fragmentos, e alguns até sem nexo nenhum.

    É bom teres memórias destas, é muito bom! E tenho de concordar que há certos talentos e motivação que se adquire desde muito novo em situações destas. Por exemplo a minha avó está sempre a dizer-me as coisas que o meu avó, enquanto engenheiro, inventava e mandava fazer ele próprio! E não só isso mas o pai dele também, mesmo apesar de ser Radiologista era mais engenheiro mecânico que muitos engenheiros de hoje em dia! isso motivou-me muito deu-me uma grande vontade de criar as minhas próprias coisas.

    E é muito saudável guardares essas boas memórias, ajudam a renovar a vocação e lembrar de que há um propósito nisso. Dá forças, dá motivação!

    Beijinhos,
    JD

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