Ontem, a propósito de uma conversa com um amigo, lembrei-me das tardes que passava na garagem do meu avô quando tinha uns 3 anos. É claro que são recordações esparsas, só imagens que ficaram gravadas na minha memória e que de tempos a tempos me voltam à mente.
Lembro-me que a garagem do meu avô era bem mais do que um sítio para pôr o carro. Era na verdade uma oficina onde o meu avô se entretinha todas as tardes a arranjar maquinetas, a substituir peças, a soldar, a lixar, a pintar… Usava também aquilo a que ainda hoje chama o “aparelho” e que sei agora que é um amperímetro. E eu, claro, era a sua prestável ajudante. Sabia onde estava tudo e fazíamos uma equipa imbatível (apesar de provavelmente eu não chegar às coisas ou não poder com a maior parte da ferramenta).
Havia um banquinho de madeira, que é minúsculo, mas que na altura me parecia ter um tamanho perfeitamente aceitável, e que tinha um buraco no meio. O meu avô explicou-me que servia para ser mais fácil transportar o banquinho só com um dedo. Qual dedo, qual fácil, qual quê, naquele buraquinho entravam vários dedos meus, e nem isso o tornava mais portátil, mas lá conseguia arrastá-lo para o sítio onde o meu avô ia executar a sua obra seguinte.
Em frente à garagem ainda havia um patiozinho, se bem me lembro, separado da rua por um gradeamento e um portão pintados com o que um dia já tinha sido vermelho. Nesse gradeamento havia um carreiro de formigas, mas em vez de serem aquelas formigas pequeninas, que eu não tinha medo de esborrachar impiedosamente com a mão, eram formigas grandes e feias, mas que tinham a vantagem de ser facilmente observáveis: era possível distinguir as três bolinhas que constituíam o seu corpo, contar as patas, olhar para as antenas…
Ainda hoje me pergunto se estas tardes não terão contribuído para a minha curiosidade por montar e desmontar coisas, por máquinas em geral e para o desenvolvimento do meu talento natural para encontrar parafusos que caem e que já ninguém consegue encontrar…
Publicado por Filipa 


